domingo, 16 de outubro de 2011
Guerra entre escudos
Guerra entre escudos
Que belo jogo tivemos nesse memorável domingo. A torcida em um grande coro cantou durante os noventa minutos como se fosse o último dia de carnaval. Eles vieram de fora, com grandes nomes que brilhavam e uma camisa cheia de conquistas. Mas meus caros, hoje o sol brilhava rubro negro. E provamos que o futebol não se faz de títulos ou de grandes estrelas, se faz de raça e pés. E modéstia parte nesses quesitos nos mostramos imbatíveis.
Enquanto suas camisas desfilam três grandes títulos mundiais, nos exibimos a vocês um show com três lindos gols. Para aqueles que ficaram muito desamparados trago uma solução simples. Que envolve apenas ter um pincel e as cores corretas, onde em seu escudo estão às erradas letras ‘’SPFC’’ troque por ‘’ACG’ e ao invés de tantos títulos antigos, apague o triangulo de estrelas vermelhas do centro. Ai sim, você poderá ser feliz, descobrir quem é o real melhor goleiro do Brasil e ouvir os gritos ecoando pelo nosso querido estádio, fazendo parte de tão perfeito coro gritando: ATLÉTICO!
Lucas Mendes de Oliveira
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
A desculpa da cultura
A desculpa da cultura
Já estou farto de ouvir que a corrupção é uma característica cultural do povo brasileiro e que simplesmente não podemos mudar isso. Esse tipo de atitude deve alegrar muito todos os políticos corruptos de nosso país. Muitos dizem que esse comportamento nos fora trazido de Portugal com a chegada da coroa ao Rio de Janeiro. Não pretendo entrar no mérito da veracidade dessa informação, o que quero analisar é essa atitude conformista presente na raiz desse tipo de discurso.
Já pensou se os alemães simplesmente dissessem que o antissemitismo e a segregação racial faziam parte da cultura alemã e assim, mesmo depois da queda de Hitler, eles continuassem a cometer as atrocidades cometidas no período de guerra? Tudo isso pode parecer meio extremista, porém se pararmos para analisar, descobriremos que tal comparação não é tão insana assim.
Mas não, deixar pra lá é mais fácil, por a culpa em um evento do passado ou até mesmo em toda a cultura de um país, do que assumir que na realidade a culpa é minha. Eu que sempre voto em políticos corruptos, cometo pequenos delitos no meu dia a dia e nunca me levando do sofá para fazer nada pelo meu país. Porque devo eu lutar por algo se posso simplesmente colocar a culpa no outro? E assim o Brasil se afunda cada vez mais na lama.
A atitude e o desejo de mudança não são controlados apenas por fatores culturais, sendo assim sinto informar-lhe, mas o grande culpado por esse quadro caótico em que vivemos é você, que ao invés de lutar contra essa situação caótica em que a política brasileira se encontra, prefere achar desculpas baratas que satisfaçam seu ego. Então pense duas vezes antes de tentar desviar a culpa de toda essa podridão em que vivemos para outra pessoa, e se possível tente não ser tão egoísta e faça algo de bom para a sociedade em que você vive.
Lucas Mendes de Oliveira
O ‘’uai’’
O ‘’uai’’
Estava caminhando nas ruas do centro de Goiânia, pensando nas besteiras existencialistas de sempre, até que algo me chamou muito a atenção. Era uma conversa muito estranha protagonizada por duas velhinhas de mais ou menos 65 de idade. Eu não sei ao certo se elas estavam discutindo sobre a quantidade de fermento que deveria ser colocada para obter-se um bolo macio ou se era sobre a queda da bolsa finlandesa. Independente do tema, fiquei maravilhado com o uso feito pelas duas do termo ‘’uai’’. Confesso que, mesmo eu sendo goiano que come pequi com as mãos, eu nunca entendi direito a origem dessa palavra.
Talvez ela seja uma onomatopeia do grito emitido por algum turista que tenha mordido um pequi achando que se tratava de mini mangas. Independente de sua gênese, posso dizer que por algum motivo ela é muito importante. Aliás, quantas famílias já não foram desestruturadas por brigas entre goianos e mineiros reivindicando a patente dessa palavra. Talvez ‘’uai’’ seja a palavra que Nietzsche tenha procurado em toda sua vida para decifrar a existência humana, ou até mesmo a peça chave para que Einstein tivesse decifrado um método empírico de comprovar-se a teoria da relatividade. Na intenção de não tirar nenhuma conclusão precipitada, continuei ouvindo o discurso das duas sábias, PHD’s em ‘’uai’’.
Percebi que pequenas alterações na entonação da palavra podiam alterar drasticamente o significado da mesma. Quando o ‘’uai’’ possuía um “á” mais alongado, o termo tinha a mesma função que seu parente das terras do norte ‘’Why’’, significando ‘’por que?’’. Quando a palavra é falada mais rapidamente, como se fosse um leve espirro, seu significado também se torna mais breve, transformando-se em um simples ‘’que?’’, porem, alguns conservadores dizem que o verdadeiro sentido seria um ‘’ora bolas?’’. Havia também outras várias variações da palavra, que eu não consegui entender completamente. Percebi que o ‘’uai’’ podia assumir muitos outros sentidos se ela se unisse a outros termos como: ‘’so’’, ‘’ara’’, ‘’noss...’’ e ‘’pussivi’’.
As duas senhoras começaram a se incomodar com o fato de eu as estar espionando. Tentei então enviar a elas um breve sorriso. Uma delas levantou-se, extremamente irritada, me deu uma ‘’guardachuvada ‘’ na cabeça e me mostrou sua aliança. Sai o mais rápido possível daquele lugar onde todos me enviavam olhares de desaprovação, como se eu fosse um grande maníaco sexual. Mas nesse mundo, quem já não foi julgado maníaco sexual de velhinhos
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O Boina
Olá, sou Joaquim Fernando Nunes, o famoso boina. Sou muito conhecido nos sarais poéticos e eventos de jazz da cidade. As pessoas da cidade sempre me falam: ‘’Sai dai’’, ‘’cala a boca’’ e ‘’senta ai otário’’. O importante é ser famoso. Eu sou poeta também, escrevo alguns versinhos bem legais. Tenho uma técnica muito peculiar e nova, onde falo de mim na terceira pessoa, me julgo bem criativo por isso.
Há poucos dias resolvi começar a fumar. Creio que isso pode me dar um ar bem mais intelectual. Com isso eu também seria mais socialmente aceito na minha universidade, onde todos fumam no campus. Alias eu esqueci de falar, sou cursante de jornalismo e acredite em mim todos os meus colegas de curso fumam seus cigarros.
Mas o negocio de se transformar em um usuário de nicotina não é tão fácil assim como parece. Você precisa escolher a marca perfeita. Precisa te dar um ar de intelectual niilista depressivo, para que todos que olhem para você digam: ‘’Ele sabe quem Nietzsche é’’. Fui até uma banca de revista para escolher o cigarro.
E agora mundo cruel, qual será a marca ideal? Talvez uma marca francesa, ela me daria um ar artístico, porém clássico. Mas então me lembrei que esses cigarros são taxados como de homossexuais, é não era bem isso que eu procurava. Os famosos cigarros pretos eu já sabia que não levaria, pois, em um sarau ouvi dois amigos comentarem que esse seria um cigarro de puta.
Sobraram-me os clássicos. Todos com nome em inglês, agora só me bastava saber qual. Nessa altura do campeonato o dono da banca já me enviava alguns olhares ameaçadores. Eu pouco me importei precisava daquilo com certa urgência. Decidi então que o filtro deveria vermelho, dando um ‘’quê’’ de machão. Isso me deixou com apenas duas marcas, e baseado na arte da capinha do cigarro fiz a minha escolha.
Muito orgulhoso, paguei os meus R$ 4,75 e coloquei o cigarro no bolso. Só ao chegar na faculdade eu percebi ter esquecido de comprar o maldito isqueiro. Achei melhor começar a fumar amanha. Tive também a grande ideia de no dia seguinte levar o meu violão Folk dando mais ainda um ar cult.
E assim fiz. Passei novamente na banquinha e comprei um isqueiro preto. Fui para o campus de comunicação, sentei , acendi um cigarro e deitei meu instrumento. Então lembrei que eu não sabia fumar nem tocar. Imagina se alguém me pedisse para tocar, ou chegasse perto e visse que eu não possuía a técnica do trago perfeito. Tive sorte de ter chegado próximo do início das aulas.
Correndo fui até a biblioteca pesquisar nos computadores técnicas de fumar e pega um fita adesiva branca .Depois de algumas boas tentativas fui vitorioso na arte das tragadas. Com a fita adesiva e um pouco de papel higiênico do banheiro e alguns palitos de picolé usados montei uma atadura para um dedo de minha mão direita.
Agora era o novo intervalo. DROGA! Eu esqueci que sou destro, e como eu havia colocado a atadura em meu mindinho, ainda não era desculpa para não tocar o violão. Então de hoje em diante eu teria de ser canhoto. Pessoas aproximaram-se de mim e tive um bom contato. Me pediram para eu tocar alguma coisa, então argumentei sobre meu dedo. Pensativo um cara me perguntou, o porque de eu ter trazido o violão. Disse que astutamente que eu estive em uma casa de um amigo para uma bebedeira e que havia levado o violão para os outros músicos. Depois disso emprestei meu belo Folk para alguns camaradas.
No outro dias, algumas pessoas já começaram a olhar para mim no campus, e até recebi alguns ‘’Ois’’. Notei que todos me chamavam apenas de ‘’O Boina’’. Devo admitir que gostei muito do apelido, notei a grande necessidade que eu tinha de manter tal título. No mundo cult, um belo apelido pode ser comparado com um título de ‘’Lord’’, e boina inchava-se perfeitamente com a imagem que estava a formar, pois , a boina é um acessório ‘’vintage’’ e ao mesmo tempo ‘’undergraud’’ assim como uma boa sessão de free jazz.
Mas então aconteceu algo terrível! Eu vi uma pessoa usando uma boina também, isso poderia ser meu fim. Para passar o nervosismo resolvi acender um cigarro, mas infelizmente meu desequilíbrio mental me fizera esquecer como fumar e comecei a tossir terrivelmente. Tomara que as pessoas achem que eu estou apenas com algum tipo de tuberculose.
Ao sair da faculdade, resolvi ir a uma loja de artigos franceses comprar novas boinas. Elas deveriam ser muito, muito staly, de moda a ofuscar a boina que havia visto naquele dia. Felizmente o dono da loja Seu Pardie houvera importado muitas boinas da França a pouco tempo, sendo assim ele possui divinos modelos vindos direto da Europa.
Primeiro comprei os tipos clássicos de boinas. Uma com o símbolo comunista semelhante a de Cheguevara e uma idêntica porém com o ‘’a’’ anarquista no lugar da foice e o martelo. Com essas duas eu poderia fazer amizade com qualquer punk ou barbudo da faculdade. Comprei também uma Parisiense, para o caso de eu algum dia comprar um cigarro francês ou ir assistir a seção do Woody Allen ou Bunel. E finalmente, uma de couro, modelo note americano. Ela combinaria perfeitamente com meu maço de Malboro. Resolvi comprar todas. Previ que meu banco me ligaria muito naquele mês. A assim passei meu cartão como uma grande navalha da maquila no Seu Pardie.
Animado vesti minha melhor calça, calcei meus melhores sapatos e coloque minha boina com o símbolo comunista. Confesso que em minha mochila eu ocultava também minha boina anarquista, eu faria um leve teste, se o comunismo agradasse seria eu comunista, se não agradasse me diria que era apenas uma brincadeira e a trocaria por aquela anarquista. Pelo jeito escolhi muito bem, todos gostaram muito da ideologia comunista, é um pouco hilário pensar que com o dinheiro daquela boina, eu poderia comprar todos os ‘’Das Kapital’’ e o Manifesto comunista, confesso que usar a boina é mais fácil.
Não demorou muito tempo, por indicação de um professor que sempre me observava o estilo que eu exteorizava entrei em uma revista cultural chamada de ‘’P Cult’’. Para crescer dentro da empresa comprei em um sebo vários LP’s do Louis Armstrong, Cole Porter e Miles Davis. Isso agradou muito o editor chefe que me promoveu para o cargo de crítico de jazz. Bom finalmente cheguei ao lugar que eu queria nessa vida. Agora me desculpem a indelicadeza mas eu preciso comprar um óculos escuro novo.
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