Olá, sou Joaquim Fernando Nunes, o famoso boina. Sou muito conhecido nos sarais poéticos e eventos de jazz da cidade. As pessoas da cidade sempre me falam: ‘’Sai dai’’, ‘’cala a boca’’ e ‘’senta ai otário’’. O importante é ser famoso. Eu sou poeta também, escrevo alguns versinhos bem legais. Tenho uma técnica muito peculiar e nova, onde falo de mim na terceira pessoa, me julgo bem criativo por isso.
Há poucos dias resolvi começar a fumar. Creio que isso pode me dar um ar bem mais intelectual. Com isso eu também seria mais socialmente aceito na minha universidade, onde todos fumam no campus. Alias eu esqueci de falar, sou cursante de jornalismo e acredite em mim todos os meus colegas de curso fumam seus cigarros.
Mas o negocio de se transformar em um usuário de nicotina não é tão fácil assim como parece. Você precisa escolher a marca perfeita. Precisa te dar um ar de intelectual niilista depressivo, para que todos que olhem para você digam: ‘’Ele sabe quem Nietzsche é’’. Fui até uma banca de revista para escolher o cigarro.
E agora mundo cruel, qual será a marca ideal? Talvez uma marca francesa, ela me daria um ar artístico, porém clássico. Mas então me lembrei que esses cigarros são taxados como de homossexuais, é não era bem isso que eu procurava. Os famosos cigarros pretos eu já sabia que não levaria, pois, em um sarau ouvi dois amigos comentarem que esse seria um cigarro de puta.
Sobraram-me os clássicos. Todos com nome em inglês, agora só me bastava saber qual. Nessa altura do campeonato o dono da banca já me enviava alguns olhares ameaçadores. Eu pouco me importei precisava daquilo com certa urgência. Decidi então que o filtro deveria vermelho, dando um ‘’quê’’ de machão. Isso me deixou com apenas duas marcas, e baseado na arte da capinha do cigarro fiz a minha escolha.
Muito orgulhoso, paguei os meus R$ 4,75 e coloquei o cigarro no bolso. Só ao chegar na faculdade eu percebi ter esquecido de comprar o maldito isqueiro. Achei melhor começar a fumar amanha. Tive também a grande ideia de no dia seguinte levar o meu violão Folk dando mais ainda um ar cult.
E assim fiz. Passei novamente na banquinha e comprei um isqueiro preto. Fui para o campus de comunicação, sentei , acendi um cigarro e deitei meu instrumento. Então lembrei que eu não sabia fumar nem tocar. Imagina se alguém me pedisse para tocar, ou chegasse perto e visse que eu não possuía a técnica do trago perfeito. Tive sorte de ter chegado próximo do início das aulas.
Correndo fui até a biblioteca pesquisar nos computadores técnicas de fumar e pega um fita adesiva branca .Depois de algumas boas tentativas fui vitorioso na arte das tragadas. Com a fita adesiva e um pouco de papel higiênico do banheiro e alguns palitos de picolé usados montei uma atadura para um dedo de minha mão direita.
Agora era o novo intervalo. DROGA! Eu esqueci que sou destro, e como eu havia colocado a atadura em meu mindinho, ainda não era desculpa para não tocar o violão. Então de hoje em diante eu teria de ser canhoto. Pessoas aproximaram-se de mim e tive um bom contato. Me pediram para eu tocar alguma coisa, então argumentei sobre meu dedo. Pensativo um cara me perguntou, o porque de eu ter trazido o violão. Disse que astutamente que eu estive em uma casa de um amigo para uma bebedeira e que havia levado o violão para os outros músicos. Depois disso emprestei meu belo Folk para alguns camaradas.
No outro dias, algumas pessoas já começaram a olhar para mim no campus, e até recebi alguns ‘’Ois’’. Notei que todos me chamavam apenas de ‘’O Boina’’. Devo admitir que gostei muito do apelido, notei a grande necessidade que eu tinha de manter tal título. No mundo cult, um belo apelido pode ser comparado com um título de ‘’Lord’’, e boina inchava-se perfeitamente com a imagem que estava a formar, pois , a boina é um acessório ‘’vintage’’ e ao mesmo tempo ‘’undergraud’’ assim como uma boa sessão de free jazz.
Mas então aconteceu algo terrível! Eu vi uma pessoa usando uma boina também, isso poderia ser meu fim. Para passar o nervosismo resolvi acender um cigarro, mas infelizmente meu desequilíbrio mental me fizera esquecer como fumar e comecei a tossir terrivelmente. Tomara que as pessoas achem que eu estou apenas com algum tipo de tuberculose.
Ao sair da faculdade, resolvi ir a uma loja de artigos franceses comprar novas boinas. Elas deveriam ser muito, muito staly, de moda a ofuscar a boina que havia visto naquele dia. Felizmente o dono da loja Seu Pardie houvera importado muitas boinas da França a pouco tempo, sendo assim ele possui divinos modelos vindos direto da Europa.
Primeiro comprei os tipos clássicos de boinas. Uma com o símbolo comunista semelhante a de Cheguevara e uma idêntica porém com o ‘’a’’ anarquista no lugar da foice e o martelo. Com essas duas eu poderia fazer amizade com qualquer punk ou barbudo da faculdade. Comprei também uma Parisiense, para o caso de eu algum dia comprar um cigarro francês ou ir assistir a seção do Woody Allen ou Bunel. E finalmente, uma de couro, modelo note americano. Ela combinaria perfeitamente com meu maço de Malboro. Resolvi comprar todas. Previ que meu banco me ligaria muito naquele mês. A assim passei meu cartão como uma grande navalha da maquila no Seu Pardie.
Animado vesti minha melhor calça, calcei meus melhores sapatos e coloque minha boina com o símbolo comunista. Confesso que em minha mochila eu ocultava também minha boina anarquista, eu faria um leve teste, se o comunismo agradasse seria eu comunista, se não agradasse me diria que era apenas uma brincadeira e a trocaria por aquela anarquista. Pelo jeito escolhi muito bem, todos gostaram muito da ideologia comunista, é um pouco hilário pensar que com o dinheiro daquela boina, eu poderia comprar todos os ‘’Das Kapital’’ e o Manifesto comunista, confesso que usar a boina é mais fácil.
Não demorou muito tempo, por indicação de um professor que sempre me observava o estilo que eu exteorizava entrei em uma revista cultural chamada de ‘’P Cult’’. Para crescer dentro da empresa comprei em um sebo vários LP’s do Louis Armstrong, Cole Porter e Miles Davis. Isso agradou muito o editor chefe que me promoveu para o cargo de crítico de jazz. Bom finalmente cheguei ao lugar que eu queria nessa vida. Agora me desculpem a indelicadeza mas eu preciso comprar um óculos escuro novo.
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